‘Meu sonho é ter uma clínica de massagem’, contou Rafael Fortaleza ao g1. Rafael Fortaleza vende doces em frente à sua casa
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Semana corrida, agenda cheia de compromissos, a cada dia que passa a impressão é que os dias têm passado mais rápido. Apesar do sentimento de “curto tempo”, Rafael Fortaleza, de 39 anos, transforma seu cotidiano em momentos especiais e aproveita cada minuto como se fosse o último, exercendo atividades que vão desde o empreendedorismo em frente à residência dele até momentos com a família.
Morador de Presidente Prudente (SP), o homem é portador de Síndrome de Down e contou em entrevista ao g1 que vende doces em frente à sua casa com o objetivo de juntar recursos para realizar o sonho de ter uma clínica de massagem.
“Eu gosto de vender os produtos, a minha mãe faz doce de leite, de banana, bolos caseirinhos e monto a minha banquinha em frente à minha casa. O meu maior desejo é montar uma clínica de massagem, então eu recebo todo o dinheiro, coloco na minha bolsa e junto para conseguir realizar esse sonho”, contou Rafael.
De acordo com a mãe de Rafael, Rita de Cássia Fortaleza de Carvalho, de 65 anos, além das vendas na casa, o filho também aceita encomendas e oferece os produtos aos amigos e professores na Associação do Oeste Paulista de Síndrome De Down (AOP Down), em que ele recebe atendimentos semanalmente.
Rafael Fortaleza, em Presidente Prudente (SP)
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“Ele não gosta de ficar parado e tem como inspiração o pai dele que faleceu, que era vendedor ambulante. O Rafa diz que, para ele, é a melhor coisa melhor do mundo trabalhar e ter o dinheirinho dele”, explicou Rita.
Além das vendas, Rafael fez curso de massagem e fazia atendimentos ao público na própria residência dele.
“Para mim, a massagem é como se fosse uma terapia, e as pessoas precisam sentir. É um toque que pode auxiliar na dor de cabeça, nos pés, na perna, em todo o corpo”, contou ao g1.
Rafael Fortaleza, em Presidente Prudente (SP)
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Talentos que inspiram
Em entrevista ao g1, Rafael contou que uma das coisas que mais gosta de fazer em seu tempo livre é dançar, tanto na própria sala de casa até nas celebrações de cultos na igreja evangélica em que ele frequenta.
“Eu sou professor de dança de salão também, fiz um curso e recebi certificado. Na minha igreja eu danço nos cultos, até o pastor pergunta quando eu não vou ‘cadê o Rafael?’, aí todo domingo eu vou lá dançar”, ressaltou.
Massagista com Síndrome de Down compartilha sonho de ter clínica de massagem
“A dança foi um dom que Deus me deu. Desde pequeno eu pratico e é em todo lugar, na minha casa e das minhas tias, na minha escola no AOP Down, entre outros”, disse Rafael ao g1.
“Para mim é como se fosse uma terapia, na mente, na alma, uma maneira de mostrar às pessoas que Deus está no meio de nós, que é muito importante isso”, finalizou Rafael.
Rafael Fortaleza, em Presidente Prudente (SP)
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Preconceito
Segundo Rita, quando o Rafael nasceu, em 1986, o marido dela notou algo diferente na criança e, ao perguntar aos médicos sobre, os profissionais disseram que ele era “mongolóide”.
“Fui morar no Piauí, casei, e o Rafa foi o meu quinto filho. Quando ele nasceu, eu não percebi nada de diferente, quem percebeu foi o pai dele, então meu marido me perguntou se eu tinha visto que o Rafa não era igual aos outros filhos e eu disse que não. Os médicos disseram que ele era mongolóide, na época não sabiam o que era a Síndrome de Down”, detalhou ao g1.
“Eu fiquei muito preocupada mas, mesmo assim, tive fé que ele seria igual aos irmãos como é hoje, inteligente que só. Eu tinha um irmão que morava aqui em Presidente Prudente e ele falou para virmos, pois teríamos mais condições no tratamento dele. Então nós viemos, largamos tudo lá”, destacou Rita.
Rafael Fortaleza, em Presidente Prudente (SP)
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“Quando eu cheguei na cidade [Presidente Prudente], o Rafa tinha oito meses de vida e fui informada sobre um médico que cuidava de crianças especiais. O doutor cuida dele até hoje, é como se tivesse o adotado, e na consulta me disse que meu filho era portador da Síndrome de Down”, ressaltou.
Para a mãe de Rafael, o maior desafio foi o preconceito que as pessoas demonstravam ter com o filho dela, e ainda contou ao g1 um dos casos que presenciou com Rafael enquanto estavam em uma unidade de saúde.
“Estávamos no posto de saúde e uma mulher estava com o filho dela. A criança foi perto do Rafa e ela disse: ‘saí de perto desse menino que tu vai pegar a doença dele, não está vendo?’. Nossa, eu fiquei tão brava e irritada, depois ela ainda falou ‘saí daí, a gente ter que ter nojo de pessoas assim’,” contou Rita.
Rafael Fortaleza, em Presidente Prudente (SP)
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“Eu estava segurando o Rafinha, entreguei ele para a minha cunhada e fiquei louca. Eu bati nela, puxei os cabelos dela e disse que meu filho era igual ao dela, que era uma criança saudável, linda e que não tinha nenhuma doença transmissível”, destacou ao g1.
“O Rafa sofreu muito preconceito, as pessoas tinham nojo e faziam com que os filhos delas tivessem medo também, entende? Hoje em dia não sofremos mais com isso, agora todo mundo respeita o Rafinha, onde ele chega o pessoal acolhe e diz que ele é um menino maravilhoso e educado”, disse Rita.
Acompanhamento e desenvolvimento
Desde pequeno, Rafael foi atendido por profissionais como fisioterapeutas, fonoaudiólogos e, quando ele completou um ano e dois meses já começou a andar.
“ O Rafinha se desenvolveu muito bem, tanto no físico quanto no mental. Ele era uma criança muito conversadeira, espontânea e comunicativa. Pensávamos que o desenvolvimento dele iria ser mais lento, mas ele logo caminhou, começou a falar, então dizemos que ele é um milagre de Deus”, contou Rita ao g1.
“O Rafael estudou por 12 anos no Núcleo Ttere aqui em Presidente Prudente e hoje está na AOP Down. Enquanto estive doente, o Rafinha cuidou de mim, ele faz café, torrada, ajuda nas tarefas de casa, faz até almoço, ele me ajuda muito”, ressaltou.
Além disso, Rita destacou ao g1 que o filho sempre foi ativo, e o interesse dele pela aprendizagem, empreendedorismo e atividades artísticas aumentava a cada dia.
“Lá onde o Rafa estuda, eu converso sempre com as mães e elas falam que os filhos delas não fazem nada, alguns ficam o tempo todo dormindo, por exemplo. O Rafinha não, desde pequeno ele é assim, sempre tratei todos os meus filhos de maneira igual e ele foi aprendendo as coisas”, salientou Rita ao g1.
“Eu sou a mãe mais feliz do mundo. Acho que Deus só dá uma criança como o Rafa quando vê que a pessoa tem amor pra cuidar. O Rafael foi o maior presente da minha vida. Quando ele chegou, foi a maior alegria da minha vida. O meu amor e de todos da minha família é muito grande por ele”, concluiu.
Rafael Fortaleza, em Presidente Prudente (SP)
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