Pai de seis que teve a esposa morta com uma bala perdida na cabeça em operação da PM cobra respostas


Edneia Fernandes Silva, de 31 anos, estava sentada em uma praça de Santos (SP) quando foi atingida por um disparo na cabeça durante intervenção da PM pela Operação Verão. A ação foi realizada na Baixada Santista entre 3 de fevereiro e 1º de abril e resultou nas mortes de 56 suspeitos em 61 dias. Pai de seis cobra conclusão da investigação da morte de esposa atingida por bala perdida na cabeça em ação da PM
Arquivo Pessoal e Reprodução/TV Globo
O marido de Edneia Fernandes Silva, de 31 anos, que morreu após ser atingida por uma bala perdida na cabeça em Santos (SP), durante a Operação Verão, cobra a conclusão da investigação sobre a morte da companheira. Esse não é o único caso envolvido em operações policiais sem desfecho na Baixada Santista, conforme apurado pelo repórter Walace Lara, da TV Globo (veja os outros abaixo).
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O vigia Givaldo Manoel da Silva Júnior, que ficou viúvo e com a responsabilidade de cuidar 6 filhos, afirmou que a esposa era amorosa e dividia o que tinha para ajudar as pessoas. O homem contou receber ajuda dos irmãos, amigos da igreja e moradores da comunidade para cuidar das crianças.
“[O] Dia das mães foi difícil com meus filhos perguntando da mãe. A menininha de 2 anos perguntando: ‘Pai, vai buscar minha mãe?’ e o menino de 10 falando ‘Pai, por que fizeram isso com a minha mãe?'”, disse Givaldo.
Famílias cobram agilidade em investigações de mortes na baixada santista
Edneia foi morta em 27 de março deste ano durante a Operação Verão. Ela foi atingida quando estava sentada na Praça José Lamacchia, no bairro Bom Retiro, conversando com uma amiga enquanto aguardava o filho cortar o cabelo em um salão próximo ao local.
Cobra respostas
Quase três meses após a morte de Edneia, a Polícia Civil não conseguiu dar uma resposta à família. Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-SP) disse que o caso é investigado pela 3ª Delegacia de Homicídios de Santos.
Tiroteio ocorreu na Praça José Lamacchia, no bairro Bom Retiro, em Santos (SP)
Thais Rozo/g1
Ainda de acordo com a pasta, o caso também é investigado pela PM por meio de Inquérito Policial Militar. O delegado ouviu testemunhas e aguarda o resultado de exames periciais complementares para elucidação dos fatos.
Givaldo tem apenas o Boletim de Ocorrência que fez no dia da morte da companheira e uma cópia do laudo necroscópico, onde o legista do Instituto Médico Legal (IML) notou que Edneia morreu com um tiro que a atingiu na cabeça.
“Não é só para mim, é para os meus filhos também. Não estou aqui pedindo nada, só quero o inquérito policial da minha esposa. […] Só quero deixar meus filhos aliviados pelo o que aconteceu e que a Justiça que seja feita”, disse ele.
Casos sem respostas
Chinelos e cápsulas de fuzil foram encontradas no Jardim Rio Branco, em São Vicente (SP)
Marco Antonio Gonçalves/TV Globo
Outros casos ocorridos durante operações policiais também estão em abertos e sem conclusão.
▶️ Servidor baleado de São Vicente: O homem levou um tiro de um policial militar enquanto trabalhava. A cena foi toda filmada.
▶️ Cinco mortos em mata: O caso aconteceu no Jardim Rio Branco, em São Vicente, em 27 de fevereiro deste ano. Na época, a SSP-SP disse que eles estavam com drogas e armas.
▶️ Deficiente visual é morto: Hildebrando Simão Neto, de 24 anos, foi morto com o amigo Davi Gonçalves Junior, de 20, em 7 de fevereiro, em São Vicente. O caso segue sem explicação.
A SSP-SP disse que os quatro casos citados estão sob segredo de Justiça, sendo que o caso dois jovens mortos em São Vicente e do funcionário da prefeitura são investigados pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Praia Grande.
Em relação ao caso dos cinco homens mortos na área de mata em São Vicente, a SSP-SP disse que um prazo maior para a investigação foi solicitado pela Polícia Civil.
Levantamento do MP-SP
Um levantamento do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), que instaurou 71 inquéritos, aponta que 84 pessoas foram mortas durante a Operação Escudo [entre julho e agosto de 2023] e Verão [entre dezembro de 2023 e março deste ano].
A professora de Direito Penal da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Luisa Moraes Abreu Ferreira, a demora da conclusão prolonga o sofrimento das famílias. De acordo com ela, os processos de homicídios costumam demorar mais do que dois meses para conclusão dos inquéritos.
“Agora, em uma situação de inquéritos que investigam eventuais abusos da polícia, a gente tem uma complexidade maior que pode justificar eventual demora que são problemas e dificuldades, que a gente vê na apuração da responsabilidade civil do Estado”, disse.
Operações começaram após mortes de Patrick Bastos (à esq.) e Samuel Wesley (ao centro). José Silveira (à dir.) foi morto durante a Operação Verão.
Reprodução
A Operação Escudo foi deflagrada em 28 de julho do ano passado, após a morte do policial militar da Rota Patrick Bastos Reis. Ela durou exatamente 40 dias. Enquanto isso, a Operação Verão durou 61 dias e teve 56 mortes. Ela foi intensificada na região após a execução de Samuel Wesley Costa, outro PM da Rota.
As mortes da Operação Verão são contabilizadas pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) desde o dia 3 de fevereiro. Neste período, o cabo José Silveira dos Santos também foi assassinado e o gabinete de Segurança Pública chegou a ser transferido para Santos.
Em nota, a Ouvidoria de Polícias de São Paulo afirmou que considera “estatísticas de tragédias humanitárias” o número de suspeitos mortos. Segundo o órgão, os relatos de parente das vítimas demonstram excessos nas ações policiais que precisam ser investigados “para o bem da própria corporação”.
“A sociedade precisa da polícia e seu histórico trabalho profissional, lançando mão de tecnologia e inteligência, como, por exemplo, as câmeras portáteis, que protegem tanto a população quando os policiais”, informou a Ouvidoria, em nota.
A Ouvidoria também garantiu que continuará com a missão de encaminhar as denúncias e acompanhar as investigações para garantir os direitos da sociedade civil e das forças de segurança.
Um dos confrontos aconteceu durante patrulhamento no Morro do Itararé, em São Vicente
Yasmin Braga/TV Tribuna
Ao g1, a SSP-SP reforçou que “os casos de mortes em decorrência de intervenção policial (MDIP) são consequência direta da reação violenta de criminosos à ação da polícia no combate ao crime organizado”.
Ainda segundo a pasta, a determinação é que todas as mortes sejam rigorosamente investigadas pelas polícias Civil e Militar, com o acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário, “que inclusive têm acesso às imagens das câmeras corporais portáteis (COPs) utilizadas pelos PMs envolvidos nas ocorrências”.
Operação Escudo
PM da Rota morto era da capital de SP e estava em serviço quando foi atingido por criminosos
Arquivo Pessoal
A Operação Escudo foi deflagrada na região após a morte do PM da Rota Patrick Bastos Reis, em julho de 2023. Na ocasião, o agente foi baleado durante patrulhamento em Guarujá (SP).
Nos 40 dias de ação, segundo divulgado pelo secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, 958 pessoas foram presas e 28 suspeitos morreram em supostos confrontos com policiais. Desde o início da ação, instituições e autoridades que defendem os direitos humanos pediam o fim da operação.
Operação Verão
José Silveira dos Santos (à esq.) e Samuel Wesley Cosmo (à dir.)
Reprodução
A Operação Verão foi estabelecida na Baixada Santista desde dezembro de 2023. No entanto, as 2ª e 3ª fases, que contaram com reforço policial, foram decretadas logo após os assassinatos do soldado PM Samuel Wesley Cosmo, no último dia 2, e do cabo José Silveira dos Santos, no dia 7 de fevereiro.
A Defensoria Pública de São Paulo, em conjunto com a Conectas Direitos Humanos e o Instituto Vladimir Herzog, pediu à Organização das Nações Unidas (ONU) o fim da operação policial na região e a obrigatoriedade do uso de câmeras corporais pelos policiais militares.
Mortes de policiais
No dia 26 de janeiro, o policial militar Marcelo Augusto da Silva foi morto na rodovia dos Imigrantes, na altura de Cubatão. Ele foi baleado enquanto voltava para casa de moto. Uma grande quantidade de munições estava espalhada na rodovia. O armamento de Marcelo, no entanto, não foi encontrado.
Segundo a Polícia Civil, Marcelo foi atingido por um disparo na cabeça e dois no abdômen. Ele integrava o 38º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M) de São Paulo, mas fazia parte do reforço da Operação Verão em Praia Grande (SP).
Policiais militares Marcelo Augusto da Silva, Samuel Wesley Cosmo e José Silveira dos Santos, mortos na Baixada Santista (SP)
Reprodução/Redes Sociais e g1 Santos
No dia 2 de fevereiro, o policial das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) Samuel Wesley Cosmo morreu durante patrulhamento de rotina na Praça José Lamacchia. O agente chegou a ser socorrido para a Santa Casa de Santos (SP), mas morreu na unidade.
Uma gravação de câmera corporal obtida pelo g1 mostra o momento em que o soldado da Rota foi baleado no rosto durante um patrulhamento no bairro Bom Retiro (assista abaixo).
Vídeo mostra o PM da Rota sendo baleado no rosto em viela no litoral de SP
Cinco dias depois, o cabo PM José Silveira dos Santos, do 2⁰ Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP), morreu ao ser baleado durante patrulhamento no bairro Jardim São Manoel, em Santos. Na ocasião, outro policial militar foi baleado e está internado.
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