Sons de resistência e identidade: conheça a história do Bumba Meu Boi do Maranhão e dos sotaques nos folguedos


A tradição secular dos festejos de Bumba Meu Boi marca gerações e encanta milhares de pessoas que vêm ao Maranhão para conhecer esse traço da cultura, que resistiu ao tempo e às limitações impostas aos brincantes nos séculos passados. Bumba Meu Boi, São Luís-MA, década de 1970.
Walter Firmo(@walterfirmo), via Fotostiftung Schweiz.
O Bumba-Meu-Boi, em toda a sua diversidade, representa, não apenas uma tradição voltada para festas, mas também para a preservação de identidade e cultura regionais, que ganhou espaço como manifestação de grande expressão da cultura brasileira em todo o mundo.
O traço cultural já se consagrou no imaginário popular quando se fala em São João do Maranhão, devido a sua diversidade de sotaques, cores e que leva alegria para milhares de pessoas.
✅ Clique aqui para seguir o novo canal do g1 Maranhão no WhatsApp
Chamado no Maranhão de Bumba-meu-boi, Bumba-boi ou apenas Boi, estima-se que a tradição teve início no século 18. Entretanto, as festas do boi no estado tiveram seu primeiro registro em uma nota no jornal Farol Maranhense, datada de 1829.
A partir de então, a festa foi se desenvolvendo e levada para estados de outras regiões, a exemplo de Manaus, onde nasceu o Boi-Bumbá.
Resistência ao tempo
De acordo com o Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão (2011), em um dossiê feito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a figura do boi está presente em vários estados brasileiros, mas é no Maranhão onde a cultura ainda permanece viva com mais intensidade, apesar dos anos.
Documentário sobre festas religiosas populares do Maranhão de 1995, da TV UFMA e Fapema
Os principais motivos da festividade se manter com grande força no estado, mesmo com a ameaça de desaparecimento e sendo obrigado a pedir autorização policial para sair às ruas no século passado, é o engajamento da população na participação dos eventos, onde o boi é o principal atrativo, e a resistência dos fazedores de cultura em manter vivas as raízes da tradição.
“As manifestações culturais populares que têm o boi como figura principal estão presentes em vários estados brasileiros, mas é no Maranhão que a brincadeira do Bumba-meu-boi ganha evidência pela sua força simbólica, sua resistência ao tempo e sua capacidade de reinventar-se a cada ano sem perder sua essência”, destaca o documento.
Além disso, pode-se afirmar que esta resistência adquirida pelo Bumba-Meu-Boi foi, também, graças ao seu poder de “adaptar-se aos diversos contextos históricos, sociais e econômicos para a sua constante renovação, sem perder a essência dinâmica do interesse folclórico”, como diz o documento.
Bumba Meu Boi do Maranhão, Década de 1970
Haroldo Castro (@haroldofcastro) e Maria Flávia Faria Castro via Revista Manchete.
O ciclo de festividades do boi no período junino pode ser dividido em quatro etapas: os ensaios, o batismo do boi, as apresentações e a morte. Os estilos de brincar o Bumba-Boi, chamados de sotaques, são divididos em cinco. São eles: matraca, zabumba, orquestra, baixada e costa de mão, que diferenciam o modo de cada grupo brincar.
Geralmente, estas diferenças podem ser percebidas nas indumentárias usadas pelos integrantes, pelos instrumentos típicos usados por eles e pelos personagens da história presentes nos folguedos. O g1 preparou, logo abaixo, os tópicos onde cada sotaque é explicado para quem deseja se aprofundar mais na cultura maranhense.
Matraca
O sotaque de matraca se caracteriza pelo som estridente das matracas, que em conjunto com os pandeirões, maracás e tambores onça, dão ritmo e arrastam uma multidão de apaixonados pela cultura popular maranhense por avenidas, ruas e arraiais durante o período junino.
Boi da Pindoba, sotaque de matraca, se apresentando em arraial, em São Luís
Mas, afinal, o que são as matracas? As matracas são dois pedaços de madeira retangulares, de tamanho variável, que ao serem batidas umas às outras, ecoam um som agudo e forte.
Ao g1, a doutora, professora e pesquisadora em cultura popular, Letícia Cardoso, explica que as matracas foram instrumentos que entraram por acaso nas brincadeiras. Antigamente, grandes pedaços de madeira eram usados pelos brincantes para se defender das disputas que aconteciam entre os membros de bois rivais.
“A denominação ‘batalhão’ também representa esse sentido de luta, remonta o tempo das guerras e dos conflitos armados. Mas, a gente pode perceber que eles absorveram essa denominação pela ideia de lutar, resistir, de buscar uma interação com a sociedade por meio do discurso da toada. E a luta dos bois se dá por meio dos seus símbolos, que têm tradições centenárias”, explica a pesquisadora.
Há cerca de 20 grupos de bumba meu boi de matraca espalhados pelos quatro municípios da Grande Ilha (São Luís, São José de Ribamar, Paço do Lumiar e Raposa). Entre os grupos mais conhecidos, estão o Boi de Maracanã, Boi da Maioba, Boi de Ribamar e o Boi da Madre Deus.
Bumba meu boi de matraca: história, personagens e a cadência marcante de um dos sotaques mais populares do Maranhão
Zabumba
De todos os sotaques de bumba meu boi, o de zabumba talvez seja o que mantém com mais originalidade a influência africana e açoriana nas apresentações.
Boi de Guimarães, sotaque de Zabumba, se apresentando em São Luís (vídeo: Matheus Barroso)
Nas apresentações, os brincantes se dividem nos papéis de amos, indígenas, rajados, vaqueiros, palhaços, pais Francisco, Catirinas, além do boi. Já a sonoridade vem principalmente da zabumba (grandes tambores), e outros instrumentos musicais, como os pandeirinhos, maracás e tantãs.
As zabumbas são rústicas e feitas à mão, arrochadas na corda. Os “pandeiritos” são feitos de jenipapo e cobertos com couro, normalmente de bode.
Nas danças e nos contos transmitidos nas apresentações, chama a atenção a influência africana e indígena, com passos mais curtos e repicados. As apresentações são feitas em formato semicircular – como indígenas fazem em aldeias – e é organizada pelos tocadores e demais brincantes, com os instrumentos tocados em ritmo mais acelerado que os demais sotaques.
Sotaque de Zabumba: Ancestralidade e resistência no bumba meu boi do Maranhão
Orquestra
Orquestra é o sotaque com maior crescimento numérico durante os últimos anos e mais difundido entre os municípios do Maranhão. Dentre os principais grupos de bois de orquestra, estão o Boi de Nina Rodrigues, Boi de Axixá, Boi de Morros, Boi Brilho da Ilha, Boi Novilho Branco, Boi Upaon-Açu, Boi de Sonhos, Boi de São Simão, dentre outros.
Boi de Axixá, sotaque de orquestra, se apresentando em São Luís
No dossiê de registro do bumba meu boi como Patrimônio Cultural do Brasil, Manoel de Jesus Desterro (do bumba meu boi de Peri de Cima e mais conhecido como Manoel Tetéu) deu mais informações sobre a origem do sotaque de orquestra.
Bumba Meu Boi de Axixá, São Luís – MA, 1960
Camilo Santos via Acervo Murilo Santos(@murilo_santos.documentarista)
Para ele, em primeiro lugar, os instrumentos de sopro – presentes somente no sotaque de orquestra – não são os principais na musicalidade do boi. Na verdade, a base rítmica desse estilo de bumba meu boi é feita pelo bumbo, pelo tambor-onça e pelo banjo.
Se os instrumentos de sopro não são os principais instrumentos na orquestra, isso comprova, de certo modo, a hipótese do boi de orquestra ter sido originado de outro estilo, provavelmente de base percussiva, tendo a orquestra sido inserida com a função de realçar o sotaque.
Bumba meu boi de orquestra: O caçula dos sotaques que encanta e se reinventa
Baixada
O sotaque da Baixada, ou sotaque de Pindaré, originado na porção norte do Maranhão, traz singularidades estéticas nas vestimentas e nos instrumentos utilizados por seus brincantes. Matracas, pandeiros e maracás figuram entre as percussões executadas em sonoridade compassada, em afinidade com parte do estilo característico do folguedo.
Boi Unidos de Santa de Santa Fé, sotaque de baixada (imagens: @negrosoousa)
Ao ritmo vagaroso da dança, atribui-se o peso de adereços como os chapéus de fita – tradicionais entre os representantes do timbre da baixada –, confeccionados para as apresentações, com peso notável a quem os veste.
O Cazumbá – um dos elementos-chave entre os grupos de sotaque da baixada, com alegria e movimentações que capturam a atenção dos espectadores –, traz no nome o componente que ilustra a variedade de informações identificáveis no sotaque.
A influência, contudo, dos grupos de boi naturais de São Luís – com destaque para a exuberância de cores e um padrão de vestuário para os membros, ao longo das cerimônias –, veio a ser adotada, posteriormente, entre algumas agremiações. A presença de índios e índias também ganharam destaque como algumas das incorporações feitas ao longo do tempo.
Bumba meu boi da baixada: tradição, riqueza e diversidade na cultura maranhense
Costura de Mão
Originário da região de Cururupu, no litoral Noroeste do Maranhão, o bumba meu boi sotaque de costa de mão tem raízes do período da escravidão e não tem a mesma fama dos outros sotaques. Ainda assim, é um símbolo cultural que permanece transmitindo sonoridades e apresentações que não se encontram em nenhum outro lugar do mundo.
Primeiro concurso de Toadas de Bumba Boi dos sotaques da Baixada e Costa de Mão é realizado no MA
Divulgação
Como principais características, os bois de costa de mão são reconhecidos pela forma como os brincantes tocam os instrumentos: Literalmente com as costas das mãos, o que por vezes causa até ferimentos.
As vestimentas são trabalhadas com bordados em calças e casacos, além de chapéus em formato de cone com fitas coloridas compridas. Já o som é emitido nos tambores-onça, maracás e pandeiros.
Pandeiro no Boi Brilho da Sociedade, sotaque costa de mão
Divulgação/Boi Brilho da Sociedade
Os pandeiros, inclusive, tem uma forma peculiar de serem confeccionados e usados. De modo geral, são confeccionados em madeira ou metal e recobertos na extremidade superior com couro de animais ou membrana de nylon.
Em Cururupu, os pandeiros não possuem soalhas e apresentam uma corda ou correia com a qual o instrumento é pendurado no pescoço do tocador, que o segura com uma das mãos e o percute com as costas da outra mão.
Bumba meu boi de costa de mão: História, grupos e tradição no Maranhão
*Estagiário supervisionado por Rafaelle Fróes.
Adicionar aos favoritos o Link permanente.