Mariana Aydar e Mestrinho se afinam e se harmonizam no território nordestino de álbum que reverbera Dominguinhos


Produzido por Tó Brandileone e agendado para abril, o disco dos artistas se equilibra bem entre tradição e contemporaneidade dentro do universo do forró. Capa do álbum “Mariana e Mestrinho”, de Mariana Aydar e Mestrinho
Autumn Sonnichsen / Divulgação
Resenha de álbum
Título: Mariana e Mestrinho (MM)
Artistas: Mariana Aydar e Mestrinho
Edição: Brisa / LF + C
Cotação: ★ ★ ★ ★
♪ “Não venha me dizer / Por onde devo andar / Eu quero me perder / Não vem prender meu calcanhar / Só venha atrás de mim / Se for me acompanhar / Forró só presta assim”, enfatiza Mariana Aydar, fazendo coro com Juliana Linhares e Isabela Moraes no refrão de Alavantu anahiê, frevo formatado em clima de quadrilha de festa junina.
Parceria da compositora Isabela Moraes com o conterrâneo PC Silva, a composição inédita é um dos destaques do álbum que junta a cantora e compositora paulistana Mariana Aydar com o cantor, compositor e sanfoneiro sergipano Edivaldo Junior Alves de Oliveira, o Mestrinho.
Gravado em 2023 com produção musical de Tó Brandileone e com lançamento agendado para o início de abril deste ano de 2024, o álbum Mariana e Mestrinho – cujo título é grafado como MM na capa que expõe os artistas em foto de Autumn Sonnichsen – está assentado no vasto território musical da nação nordestina, se equilibrando bem entre as tradições do forró (rótulo que abriga diversos gêneros da região) e uma visão mais atual desse universo festivo historicamente dominado por homens.
O supracitado refrão de Alavantu anahiê, por exemplo, impõe limites e distâncias, expondo posição feminina também marcada – de forma mais explícita – em Boy lixo (Mariana Aydar, Fernando Procópio e Tinho Brito), outra novidade de repertório que harmoniza composições inéditas e regravações nada óbvias de sucessos do universo nordestino.
Boy lixo põe a mulher no centro da narrativa em faixa que deixa o forró mais arretado. Contudo, há momentos mais serenos e há faixas que o protagonismo é de Mestrinho, compositor e intérprete solista de Eu vou, música inédita gravada em ritmo veloz e aclimatada para forrós e festas juninas no espírito “isso aqui tá bom demais”.
Mestrinho e Mariana Aydar lançam em abril álbum em que cantam 10 músicas, entre composições inéditas e regravações nada óbvias
Autumn Sonnichsen / Divulgação
Acima de gêneros, paira no álbum Mariana e Mestrinho a herança do rico legado de José Domingos de Morais (12 de fevereiro de 1941 – 23 de julho de 2013), cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano imortalizado com o nome artístico de Dominguinhos.
Nome referencial na trajetória de Mestrinho e na virada dada por Aydar na carreira em 2016, ano em que a cantora voltou para o aconchego da música nordestina com o single Te faço cafuné, Dominguinhos tem a presença sentida em todo o disco.
Sim, há ecos do mestre em tudo. Seja na delicadeza da lembrança de Preciso do teu sorriso (João Silva e Enok Virgulino, 2001), xote lançado pelo Trio Virgulino e logo regravado por Dominguinhos no álbum Chega de mansinho (2002), seja no amor em paz tematizado em Até o fim, canção em que o autor Mestrinho versa sobre a saudade boa da paixão em gravação feita com a adesão do canto de Gilberto Gil, ele próprio já um buda nagô de coração invadido por essa paz de espírito.
Há também a presença de Dominguinhos no dengo que envolve o registro inédito do já citado xote Te faço um cafuné – lançado por Seu Domingos no álbum Isso aqui tá bom demais (1985) – e no romantismo forrozeiro de Ninguém segura o nosso amor (João Silva e Iranilson, 1996), composição lançada pelo cantor alagoano Erivan Alves de Almeida (1942 – 2009), o Mestre Zinho.
Faixa que anunciou o álbum Mariana e Mestrinho em single editado em 7 de março, Cheguei pra ficar (1976) – música menos badalada da parceria de Dominguinhos com Anastácia – funciona como carta de intenções dos artistas, que soam como cantadores nordestinos na pisada do baião de gravação introduzida por coro de vozes que evocam manifestações religiosas da região mais arretada do Brasil.
Já Filho do dono (Petrúcio Amorim, 1996) – regravação de sucesso do cantor Flávio José – remexe em feridas sociais, responsabilizando todo mundo por mazelas nacionais como fome, violência e abandono de crianças.
Completa o repertório Dádiva, canção que se impõe como uma das líricas de Zeca Baleiro, autor da composição inédita que valoriza disco que, além de ostentar a sanfona virtuosa de Mestrinho em todas as faixas, tem os toques dos músicos Feeh Silva (zabumba e triângulo), Salomão Soares (piano), Fejuca (violão e cavaco), Federico Puppi (violoncelo), Will Bone (sopros), Rafa Moraes (guitarra) e Léo Rodrigues (percussão), além dos muitos instrumentos pilotados pelo produtor Tó Brandileone.
Enfim, Mariana e Mestrinho é álbum mais coeso e equilibrado do que o (bom) disco anterior da cantora, Veia nordestina (2019). A equação entre contemporaneidade e tradição parece mais bem resolvida em MM.
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